Canal Da Barca

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Por que amamos o Tio Patinhas?

Segundo estudo publicado pela Forbes, Tio Patinhas aparece como o personagem fictício mais rico com 65 bilhões de dólares, à frente de Tony Stark(12 bi), Smaug(54 bi) e Mr.Burns(1,5bi).
Imortalizada nos quadrinhos, a saga do Tio Patinhas está muito além de histórias cômicas e ingênuas, ainda que seja apenas ficção, o universo criado por Carl Barks traduz valores e hierarquias do mundo real. Pois bem, vamos começar analisando Tio Patinhas, o protagonista da história. Excêntrico, rico e autoritário. Possui parentes, amigos e inimigos.
O mundo gira em torno do dinheiro, logo as relações sociais são construídas a partir de quem detém o dinheiro, o Capitalista, no universo das relações sociais, em Patópolis, está concentrado na figura do Tio Patinhas, o Capitalista da história. Como consequência disso, ele passa a ser o único personagem de referência na definição e constituição de todos os outros. Por exemplo, sobrinho e futuro herdeiro, Pato Donald sobrevive, enquanto rico potencial, oscilando entre empregos temporários oferecidos por seu tio, e o desemprego.




Quando empregado, Donald vive enraivecido e apavorado, pois sua condição de herdeiro o impede de entender o seu papel na história. Os baixos salários, trabalhos estéreis e a humilhações. É pai sem ter filhos, uma vez que carrega o encargo paterno da criação de seus três sobrinhos (Huguinho, Zezinho e Luizinho). Tio Patinhas, como Patrão, utiliza-se de artimanhas para mantê-lo ativo e fiel ao emprego. Além disso, o delírio de acumular dinheiro de seu tio, faz Donald se tornar uma das peças de um sistema de reprodução de capital, porém, ele se sujeita ao regime de humilhações cotidianas para não acabar sendo deserdado.
Dentro do universo da história, o pato com pinta de marinheiro tenta sem sucesso reproduzir as mesmas palavras e mesmos gestos do dominante (Tio Patinhas). Por ser herdeiro, Donald não enxerga na riqueza o fruto de seu trabalho, tampouco enxerga-se na condição de explorado, uma vez que seu papel é de beneficiário do sistema.
No reino do capital, entretanto, é necessário justificar porque existem uns com tanto e outros com tão pouco. Ora, no cosmos de Patópolis, existem os predestinados e “os que não são servos, nem bons fiéis — de tal modo que a entidade Sobrenatural neles não confia”. A riqueza é a sorte, e a sorte é o sinal de escolha. Por exemplo, Tio Patinhas carrega consigo uma espécie de talismã, a moedinha número 1. Esse talismã o acompanha desde o seu primeiro lucro. Portanto, constitui como um direito natural, o direito de enriquecer de cada escolhido.
Compreender a ficção é entender o modo capitalista de pensar. O universo de Tio Patinhas age sobre o leitor de forma subliminar reproduzindo valores da sociedade capitalista. Parafraseando Adorno, a tarefa atual da arte é introduzir o caos na ordem.
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