Canal Da Barca
Mostrando postagens com marcador ÁFRICA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ÁFRICA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Somália: Político Britânico é investigado por corrupção e lobby





Localizada na parte mais oriental da África, a Somália pertence ao chamado Chifre Africano — composto por Eritréia, Djibouti, Etiópia e Quênia. Seguramente, você já escutou sobre os piratas somalis. E, isso se deve ao fato do país encontrar-se, ao norte de seu território, com o Estreito de Bal-el-Mandeb (ponto de ligação do Mar Vermelho/Oceano Índico), uma região com intenso trânsito de petróleo.

De tempos em tempos, a opinião pública europeia faz um grande alarde sobre os navios saqueados em sua costa. Além disso, a Somália também ocupa as manchetes internacionais quando o assunto é imigração ou terrorismo[¹]. Entretanto, são raras as reportagens que tecem uma reflexão mais aprofundada sobre a natureza histórica dos problemas sociais na região.




Foram 22 anos de uma ditadura militar, ora alinhada com a URSS, ora com os EUA. Com derrubada do Ancien Régime, em 1991, o país mergulhou em um intensa guerra civil. No início do conflito, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma intervenção liderada pelos ianques[²], que permaneceu até 1995. Com a virada do milênio, o Estado entrou em colapso com o surgimento de grupos armados, incluindo radicais islâmicos, grupos étnicos e tribais. No final de junho de 2006, a União dos Tribunais Islâmicos capturou a capital Mogadíscio. Os anos que se sucederam foram de intervenções da aliança Etiópia/EUA e das tropas da União Africana.

 

Presidente amigo do Ocidente


Após o estabelecimento de um governo de transição (2009), as eleições presidenciais tornaram o candidato ligado a Irmandade Muçulmana, Hassan Sheikh Mohamud, o novo governante do país. Ativista político e fundador da Universidade de Mogadíscio, além de ser defensor do neoliberalismo, o novo presidente se tornou, em 2013, segundo a revista Times, um dos 100 homens mais influentes do mundo.

Todo esse poder emana das riquezas naturais da Somália. São 200 bilhões de m³ de gás natural(comprovados) e estima-se 100 bilhões de barris de petróleo. No mesmo ano da publicação da Times, o presidente, apoiado pelos britânicos/americanos, estimulou a abertura da exploração petrolífera, além de reforçar o controle militar nas localidade próximas às reservas.

O sopro branco de Londres

 

O currículo do Lorde Michael Howard(ex-líder do Partido Conservador Britânico) é para nenhum Kim Kataguri colocar defeito. Durante o período Thatcher foi ele o condutor do processo de privatização do sistema de água, fato que contribuiu para a sua promoção ao cargo de ministro do trabalho(1990–1993). Nesse período, o lorde foi responsável por flexibilizar as regras trabalhistas, que geraram demissões em massa. Sua política neoliberal beneficiou o grande empresariado ligado ao carvão.

Sua aproximação com o setor energético culminou com o seu cargo de ministro do interior(1993–1997). Mais tarde, a parceria lhe renderia bons frutos. Em 2013, o Lorde associava-se ao executivo da British Petroleum e ao controlador Robert Sheppard da DTEK Holding(maior empresa privada de energia da Ucrânia) para criar a SOMA Oil and Gás.



O ponto que a trama fica interessante

 

Segundo Global Witness, Michael Howard teria enviado uma carta à Michael Fallon, quando era ministro dos negócios do Reino Unido, pedindo um grande favor: se encontrar com o ministro da energia da Somália para discutir “os desafios de desenvolver um regime de hidrocarbonetos”(2012).

Em 2013, com apenas três meses de existência, a empresa do Lorde Britânico conseguiu permissão para explorar e pesquisar o petróleo da Somália. Recentemente, a Serious Fraud Office(SFO), um escritório governamental de investigações, tem divulgado em sua página na internet todas as informações sobre a SOMA Oil and Gás. Segundo as investigações, a empresa foi criada, exclusivamente, para atuar no mercado de petróleo do Chifre Africano, logo após da ONU pedir moratória sobre todas as novas ofertas de petróleo na Somália.

O Governo da Somália parece tentar reconstruir o país adotando o modelo neoliberal de estímulo da economia que, nesse caso, seria o de privatização de investimentos e aceitação do capital internacional para extração de recursos naturais. Entretanto, os acordos de exploração do petróleo estão sendo feitos a portas fechadas — em um país devastado por guerras- com empresas de histórico recente. Dentro desse acordo, a SOMA Oil and Gás teria ganhado 12 blocos de petróleo OffShore para realizar uma pesquisa sísmica na costa do país.


Os dados do contrato firmado com o governo da Somália não foram divulgados no parlamento somali levantando questões sobre quem são as pessoas envolvidas e os valores dos negócios. Segundo reportagem do Wall Street Journal, verificou-se que um diretor da SOMA, Mohamed Ajami, se encontra sob investigação do Departamento de Justiça dos EUA. O empresário teria sido acusado de ter feito subornos para persuadir o Libyan Investment Authority — da era Gaddafi — à investir 300 milhões de dólares(dinheiro da Líbia) no fundo de hedge Och Ziff.

****

1 — Recentemente, a mídia internacional está noticiando os atentados do Al-Shabaab — uma organização filiada à rede Al-Qaeda. Essa semana, o grupo realizou um atentado, com treze baixas, em um hotel onde estariam autoridades internacionais. Além disso, a mídia europeia, sobretudo, abordam diariamente o problema da imigração. Somalis estão sendo cada vez mais expostos ao preconceito em países como a França e a Itália. — Ref:O Globo

2 — Os Estados Unidos entraram no conflito para defender posições imperialistas e obter o controle de parte do petróleo da Somália. — Ref: Carta Maior

Como a Europa financiou a guerra na República Centro-Africana




Em 24 de março de 2013, o grupo insurgente SELEKA tomou o controle da capital Bangui e depôs o presidente General François Bozizé. Logo após o golpe de estado, os rebeldes passaram a controlar as florestas tropicais do país. Desde então, os insurgentes fecharam acordos lucrativos com grandes madeireiras internacionais. Com o dinheiro dos contratos, o Seleka passou a financiar uma campanha de violência contra a população de seu próprio país.



As investigações conduzidas pela Global Witness revelaram como empresas madeireiras colocaram milhões de euros nas mãos de grupos culpados de assassinato em massa, sequestros, estupros e recrutamento de crianças-soldados. A Europa e seus Estados são cúmplices em pelo menos três tipos de acusações:

    As empresas europeias possuem laços comerciais com a indústria madeireira da República Centro-Africana. Apenas em 2013, as companhias do velho mundo deram na mão do Seleka mais de 3,4 milhões para poderem continuar a venda ilegal de madeira.
    A Europa também é o principal destino da madeira de RCA, portanto, os Estados-Membros estão falhando no controle da entrada ilegal de madeira. A União Europeia possui um política rígida de atuação contra a entrada de pessoas “ilegais”, porém fracassa ao não conseguir manter o Blood Timber fora dos mercados europeus.
    Além disso, o governo da França pagou milhões de euros para bancar o desenvolvimento das madeireiras da RCA, com base na falsa justificativa de que essas companhias estariam contribuindo para o desenvolvimento local.

As madeireiras sob investigação são France’s Tropica-Bois, SEFCA do Líbano, e Vicwood da China. Juntas, essas empresas controlam uma área de floresta tropical duzentas vezes maior que Paris. Ademais, elas também respondem por 99% das exportações de madeira da RCA.

Segundo as investigações, as três madeireiras fizeram pagamentos frequentes para os rebeldes, como subornos e escoltas armadas para transporte de madeiras. Logo após o golpe, o grupo SEFCA transferiu 381 mil euros para o governo do Seleka.







A burocracia europeia tem feito muito pouco para dissolver os tratados ilegais. Durante o conflito de 2014, a madeira ultrapassou o diamante como número UM de exportações. O maior negociante da RCA, France’s Tropica-Bois, registrou aumento recorde em 2013, subindo 247% desde 2010. Procurada pela Global Witness, uma representante da empresa francesa disse “ A guerra na África é tão comum que nós realmente não prestamos atenção. Não é uma guerra onde eles atacam as pessoas brancas. Então, não é uma guerra que temos de evitar”. Para azar dela, a entrevista estava sendo gravada.

Em meados de setembro de 2013, um grupo — Anti-Balaka — de partidários ligados ao ex-presidente François Bozizé lançou uma ofensiva militar contra os rebeldes e civis muçulmanos da RCA. Milhares de pessoas morreram e 300 mil saíram do país como refugiados, além dos 500 mil civis que abandonaram as suas casas. Porém, com a expulsão dos rebeldes pró-Seleka e a instalação de um governo de transição, as empresas madeireiras não cessaram os pagamentos. Eles apenas passaram a ser debitados na conta do grupo Anti-Balaka.

“É tragicamente irônico o fato dos governos europeus investirem centenas de milhões de euros em operações militares para garantir a paz na RCA. São os mesmos governos que não conseguem manter a madeira do conflito fora dos mercados da UE. Se a Europa não cancelar o seu apoio as madeireiras, os consumidores da UE continuaram dando combustível ao conflito que eles mesmos enviaram seus soldados para parar.” — Alexandra Pardal, líder da campanha Global Witness.
Designed By Blogger Templates